Três em cada quatro líderes seniores admitem que tomam decisões estratégicas com dados insuficientes. É o que aponta o McKinsey Global Institute (2023). Leia de novo: 75% dos líderes do mundo decidem sobre pessoas, orçamento e direção de empresa sem as informações que precisariam ter.

Aí chega a IA e em 30 segundos monta o relatório que faltava.

Professionals Analyzing Data with Advanced Digital Graphs and Artificial Intelligence Interface

A IA não criou o problema. Ela apenas apagou a desculpa de não ter o dado.

O DIAGNÓSTICO — QUANDO O COCKPIT FICA NU

Pensa comigo. Até ontem, o líder tomava decisão no feeling. Tinha uma intuição, acompanhava “de perto” (leia-se: microgerenciava), e pronto, decisão tomada. O resto da empresa acreditava que aquilo era “gestão experiente”.

Aí entra a IA. Em 30 segundos, ChatGPT, Copilot ou Gemini gera um relatório que seu analista levaria dois dias para montar. O dashboard cria cinco cenários que você nunca tinha pensado. A IA identifica padrões que sua “experiência” perdeu.

E de repente o líder fica nu diante do próprio time. Não porque a IA é melhor — mas porque ela mostrou que não havia instrumentos. Não havia intuição superior. Havia ausência de método.

O IBM Institute for Business Value (2023) ouviu CEOs do mundo todo e concluiu: 77% acreditam que a IA vai ampliar a distância entre líderes que sabem usar dados e os que não sabem. Não é uma previsão técnica. É um diagnóstico de gestão.

O QUE ESTÁ ACONTECENDO NAS EMPRESAS?

Nos diagnósticos A.S.A.S. que conduzo em PMEs, esse padrão aparece com uma regularidade que já não me surpreende mais. Três cenas que você vai reconhecer:

Cena 1: O CEO que “sempre teve bom faro para números” implementou IA e descobriu que seus KPIs estavam completamente errados, quando tinha o KPI. O time entregava conforme era medido. Mas o que era medido não tinha relação com faturamento real.

Cena 2: A diretora que “conhecia cada funcionário” criou um dashboard de performance e percebeu que sua percepção sobre quem era o “melhor” do time não alinhava com os dados de entrega. Nenhum dos dois estava errado. Nenhum dos dois tinha o mesmo critério.

Cena 3: O fundador que “pilotava com instinto” recebeu o primeiro relatório gerado por IA e reconheceu que as decisões de alocação de recursos dos últimos dois anos foram baseadas em suposições, não em fatos verificados.

Nenhum desses líderes é incompetente. Todos operavam no escuro. E quando você opera no escuro por tempo suficiente, aprende a confiar no tato mais que na visão.

A IA não os expôs porque são ruins. Os expôs porque o cockpit nunca foi calibrado.

A CAUSA RAIZ: ALTITUDE SEM INSTRUMENTO NÃO É VISÃO, É ACHISMO

O problema não é a IA. O problema é Altitude — a capacidade do líder de sair da operação e enxergar o negócio de cima, com os dados certos na mão.

The man working on the big digital screen in the dark room

Quando um piloto voa em IMC (condição de zero visibilidade), ele não pode confiar no feeling (como acha que o avião está). Tem que confiar nos instrumentos: altímetro, horizonte artificial, velocidade do ar. Dados concretos, leitura em tempo real.

A maioria dos líderes de PME voa em IMC mas continua pilotando como se tivesse visibilidade total. E por um tempo dá conta. Até que a complexidade aumenta, o mercado muda, ou chega uma ferramenta que gera em segundos o que você levava meses para INTUIR.

Quando isso acontece, não é a IA que está errada. É o “cockpit” que nunca foi montado.

O Gallup (2023) confirma o que vejo no campo: apenas 24% dos colaboradores afirmam que suas empresas tomam decisões com base em dados de forma consistente. Três quartos das equipes do mundo trabalham sob liderança que opera no feeling. E quando a IA chega e o dado aparece, todo mundo vê.

O INSTRUMENTO: O DASHBOARD DE VERDADE

Não estou falando de software. Estou falando de método.

O que separa o líder que usa IA do líder que é exposto por IA é simples: ter definido previamente o que se mede.

Antes de pedir qualquer relatório à IA, responda estas três perguntas:

  1. O que preciso saber todo dia para pilotar? Não toda informação disponível — só a que decide o voo. Se a lista passa de cinco itens, você ainda não sabe o que importa.
  2. Como vou reconhecer um problema antes que vire crise? Métrica de detecção precoce, não de diagnóstico pós-fato. A diferença entre os dois é o tamanho do estrago.
  3. Se eu saísse da operação por duas semanas, o que quebraria? Tudo que quebrasse é instrumento de Altitude que falta no seu cockpit. É o trabalho real que você ainda não fez.

O líder que responde essas perguntas antes de usar a IA sai com um relatório que revela verdade. O que não responde sai com um relatório que expõe ignorância.

A maioria dos líderes que tem medo de IA não tem medo da tecnologia. Tem medo de parecer incompetente diante do próprio time. E têm razão em ter medo — porque se você nunca soube o que medir, a IA vai deixar isso gritante. O problema não é a IA expor você. É você ter operado no escuro por tanto tempo que o escuro virou conforto.

O PROTOCOLO DE SEGUNDA-FEIRA (adoro a aplicabilidade imediata em meus treinamentos e palestras)

Esta semana, faça isso em ordem:

Passo 1 – hoje: Reúna seu time de liderança (máximo quatro pessoas) e responda: “Qual é a métrica que, se cair 20%, seria um problema sério?” Cada um responde individualmente, sem discutir. Anote tudo. As respostas serão diferentes — isso é normal, e é exatamente o dado que você precisa ver.

Passo 2 – terça-feira: Organize as respostas em duas colunas: 

(A) métricas de resultado, receita, margem, faturamento; 

(B) métricas de operação — entrega, tempo, volume. 

Veja se há alinhamento entre o que seu time acha que importa. Provavelmente não há. Esse desalinhamento é o seu cockpit descoberto.

Passo 3 – até sexta: Escolha uma métrica de cada coluna com a qual todos concordam. Peça à IA para montar um painel simples mostrando essas duas métricas nos últimos três meses. Você vai descobrir padrões que estava perdendo. Não precisa de software caro, planilha mais ChatGPT mais 30 minutos já é um cockpit começando a funcionar.

O futuro não é “IA versus líderes”. É líderes “calibrados” com IA de um lado, e líderes desconectados da realidade tentando esconder ausência de método atrás de discurso sobre automação do outro.

A IA já está na sala de reunião. Ela não fez discurso. Ela só fez o trabalho.

Se você não quer ser exposto, não precisa mudar de tecnologia. Precisa construir o cockpit que nunca construiu. Comece mapeando o que você realmente mede — e o que você finge que mede. A diferença entre os dois é onde está o seu próximo resultado.

REFERÊNCIAS
GALLUP. State of the Global Workplace: 2023 Report. Washington: Gallup, 2023. Disponível em: https://www.gallup.com/workplace/349484/state-of-the-global-workplace.aspx. Acesso em: abr. 2026.
IBM INSTITUTE FOR BUSINESS VALUE. CEO decision-making in the age of AI: Act with intention. Armonk: IBM, 2023. Disponível em: https://www.ibm.com/thought-leadership/institute-business-value/en-us/report/ceo-generative-ai. Acesso em: abr. 2026.
McKINSEY GLOBAL INSTITUTE. The State of AI in 2023: Generative AI’s breakout year. Nova York: McKinsey & Company, 2023. Disponível em: https://www.mckinsey.com/capabilities/quantumblack/our-insights/the-state-of-ai-in-2023-generative-ais-breakout-year. Acesso em: abr. 2026.

Sobre o autor

Mario Rondon é ex-piloto da Força Aérea Brasileira, piloto de linhas aéreas e criador do Método A.S.A.S. — Altitude, Sustentação, Adaptação e Sincronia. Especialista em alta performance para PMEs brasileiras, atua como estrategista de liderança e com diagnóstico organizacional. Colunista Guia Eventos RH – https://www.linkedin.com/in/mariorondon/

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